segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Porquê 'vivências integradoras'?

A Biodanza, tal como a Vida é fonte de vivências. A vivência é "a experiência vivida com grande intensidade por um indivíduo num lapso de tempo aqui e agora, incorporando funções emocionais, cenestésicas e orgânicas" (Rolando Toro, 1968). Em Biodanza, estimulamos vivências integradoras.

Sendo a vivência uma das bases, na metodologia da Biodanza (que como já vimos anteriormente, tem o propósito de integração da identidade), ela não é a única fonte de vivências, uma vez que toda a Vida gera vivências. No entanto, na Vida estamos expostos a eco-factores positivos e negativos, ou a experiências nutritivas e tóxicas, ou a boas e más experiências, sem filtros e sem protecção. Faz parte da vida, aprender a lidar com estes desafios, sendo que uns conseguem melhor que outros. Por vezes, essas vivências deixam marcas (traumas, bloqueios, recalcamentos, medos), que muitos tem dificuldade em superar. E é assim que aprendemos a viver... 

Somos preparados pela educação convencional, para o desempenho de um papel na sociedade e para o exercício de uma profissão, que nos permita subsistência e funcionalidade dentro das regras da mesma. E tudo, numa base cognitiva, de apreensão do conhecimento pela razão, pela elaboração mental, pelo raciocínio, pela dedução lógica. No entanto, a vida é mais do que isso... ela também é visceral, emocional, sentimental, contraditória, misteriosa... 

Não existe na proposta educativa uma clara aposta numa formação para a Vida: como me expresso? o que desejo? como integro o prazer e a alegria de viver? como me conecto comigo, com o outro e com os outros de forma nutritiva e saudável? como regulo meu instinto? como aceito as minhas sensações? como lido com as minhas emoções? o que faço com o meus sentimentos? como lido com meus pensamentos? Em geral, o enfoque é como 'ser alguém' com uma carreira, ser produtivo, competitivo, famoso...

Sendo a Biodanza um sistema pedagógico, privilegia as vivências integradoras, que geram sensações de bem-estar, que pelo prazer e pela alegria possam levar à elaboração das questões acima. Vivências orientadas para a Vida, centradas na Vida, partindo do pressuposto de que o que é bom para a Vida, é bom para mim e por consequência começamos a procurar decisões que conduzam a uma melhoria do estilo de vida. Relações nutritivas, sentido de totalidade, sensação de pertença, reconhecimento, qualificação, escolhas assentes no próprio desejo, respeito pela vida que me rodeia, reforço da auto-estima e do valor intrínseco, são algumas das mudanças observadas. 

Na Escola de Biodanza, costumamos citar um livro muito interessante 'Cem anos de psicoterapia e o mundo está cada vez pior' de James Hilman e Michael Ventura, onde se elabora o facto de que o conhecimento/consciência não alteram o comportamento. Um bom exemplo que costumo dar, é o facto de todos sabermos que andar de carro, avião, consumir electricidade (práticas responsáveis pela libertação de gases tóxicos na atmosfera) poluem o ar que respiramos. Sabemos isso! Mas, enquanto conseguirmos respirar, vamos continuar com o mesmo comportamento. Logo, sabemos, mas não mudamos. 

Agora, quando começarmos a não conseguir respirar (vivência), vamos alterar imediatamente o nosso comportamento, pois de outra forma morreremos. Logo, vivemos, mudamos! É esse um dos grandes pressupostos da Biodanza. 

Induzindo vivências que nos tocam profundamente, começamos a alterar nosso comportamento, indo além da base racional e lógica que nos constitui em termos de educação e cultura, mas não em termos de humanidade. Somos insitintivos, cenestésicos, emocionais, sentimentais, mentais, espirituais e nossa educação inclui alguns destes aspectos fugazmente e centra-se na estimulação intelectual como resposta para a vida. A proposta da Biodanza, é pela vivência, incorporar todos esses aspectos da natureza humana. Integração! Incorporação (fazer corpo)!

Dizemos muitas vezes que o conhecimento, não altera o comportamento, mas a vivência sim! Através de vivências integradoras (contrário de dissociativas, catárticas, disruptivas) capazes de gerar sensações de bem-estar que em geral levam ao desejo de mudança. Muitas vezes, recebo feed-back de alunos que me dizem: 'Sinto-me tão bem quando faço Biodanza que desejo que minha vida seja mais assim. Aqui encontro vínculo, prazer, alegria, movimento, expressão, harmonia e queria muito que minha vida tivesse mais momentos destes!' É aí que a Biodanza enquanto pedagogia começa a actuar. Pelo processo em grupo regular, que implica um compromisso de vínculo e presença, pela repetição e estimulação das vivências, a pessoa começa a mudar. Desde o desejo, desde as sensações, desde a elaboração... 

As vivências são integradoras, pois estimulam os potenciais genéticos inatos, os quais denominamos por linhas de vivência (vitalidade, sexualidade, criatividade, afectividade e transcendência) e respeitam sempre o indivíduo na sua progressividade, auto-regulação e feed-back. 

Estas vivências tomam forma, através de rodas, caminhares, coordenações, sincronizações, jogos de vitalidade, jogos lúdicos, danças de fluidez, segmentares, eutonia, regressão, entre outras. Sempre com música e movimento (que geram danças) e em interacção grupal. 

Vivenciamos (dançamos) estas propostas individualmente, para que nos possamos sentir em contacto com nossos impulsos, desejos, sensações, emoções, sentimentos e por aí vai... 

Vivenciamos (dançamos) estas propostas com o outro, para que possamos sentir-nos na relação. Como comunico, como expresso meus impulsos, meus desejos, como me coordeno, como dou limite, como me vinculo nutritivamente e por aí vai...

Vivenciamos (dançamos) estas propostas com os outros, para que possamos sentir a nossa relação com o todo, o indiferenciado. Como sinto a pertença a uma unidade maior que se chama espécie, a uma ainda maior que se chama Terra, outra ainda maior que se chama Cosmos, e por aí vai... até à Totalidade.

Muito mais, muito mais mesmo, há a dizer sobre a dinâmica das vivências integradoras, mas essa é a ideia deste blog, em que, caótica e ordenamente vou lançando e dançando com os temas que fazem parte deste maravilhoso sistema de vida que dança e se chama Biodanza!

As grandes referências bibliográficas para o tema da vivência em Biodanza são, Rolando Toro Araneda (naturalmente como criador do sistema), Wilhelm Dilthey, Edmund Husserl, Merleau Ponty.

Até já,

Nuno Pinto
biodanzanunopinto@sapo.pt

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